Mais rara e tão bem-vinda poeta,
As águas dos teus olhos, ao retornares, formaram-me um oceano. Indizível é a amplidão e indescritível a imensidão desse momento, dentro e fora de mim. Não obstante, ouso dizer que se um dia nosso Senhor resolvesse retirar-me todas as minhas memórias e todas as minhas lembranças e deixar-me apenas com esta, eu saberia, por ela, a grandeza e a plenitude do amor que sentes por mim e do amor que sinto por ti. Ainda assim lembrar-te-ia infindamente o meu espírito, a tua eternidade. Percebo não haver como sabermos o futuro, mas é certo que está indelevelmente inscrita a vida que vivemos, as preciosidades que de nós possuímos, cada instante que juntos compartilhamos, em meu coração. E que desde sempre tu te tornaste e és parte incorruptível e inseparável do que constitui minha alma. Sejam quais forem os nossos caminhos, isto jamais poderá será apagado, diminuído ou esquecido. A beleza e a força desta verdade são possíveis de serem sentidas, e as sentimos tão bela e verdadeiramente, mas todas as palavras seriam mínimas para as descreverem. Amo-te, pois, com esta beleza, com esta verdade, com esta coragem, com esta ousadia, com esta candura, com esta ternura, com esta voracidade, com esta vontade, com esta disposição, com esta disponibilidade... Com esta reciprocidade: amo-te com todas as virtudes que há em mim em seus estados mais plenos; ainda que eu, humano e imperfeito que sou, repetidamente não alcance a grandiosidade dessas virtudes, que juntas de meus defeitos também são eu, meu amor por ti as alcança, naturalmente. Que nos momentos em que eu for pequeno, e serei por tantas e tantas vezes, que tu te lembres que é com este amor, desta forma, que te amo. E que nas vezes em que parecer-me grande a ti, que disto tu possas também saberes.
As plantas e os alicerces deste mais belo lar, muito mais que uma casa, estão lançados, minha querida. E nela cabem todos os materiais, todos os tijolos, todos os revestimentos, todas as portas, todas as janelas, todas as tintas que juntos para ela decidamos erguê-la; por mais semelhantes ou por mais diferentes, sempre valiosas. Que o debate se estenda, que concordemos com elas, que discordemos nelas, que a construção jamais alcance um fim: a importância, a segurança e a força dos elementos essenciais que constituem a base para tudo, nos são comuns. O caráter, a índole, os valores, a dignidade, a honra e a verdade dentro de nós: eis os nossos alicerces. Eis o que nos atraiu, eis o que nos mantém, eis no que, plenamente, concordamos. Nestes alicerces, e sobre eles, a liberdade, tão generosa, para construirmos o que quisermos, como desejarmos. Com toda a alegria, com toda a criatividade, com toda a disposição, juntos. E até mesmo a liberdade, tão justa mas tão dolorosa, de também podermos decidir nada mais juntos sobre eles construir, ou, ainda, partirmos para outras construções, sem, no entanto, abandonar jamais as nossas próprias. Seja como for, todas as preciosidades que em amor, em espontaneidade, e boa vontade me presenteaste, que continuamente me presenteias, formam também parte indestrutível deste alicerce sobre o qual construo, árdua mas esperançosamente, quem eu sou. Quem desejo vir a ser. Que eu possa continuar a construir-me diante e junto de ti e que tu possas belamente construir-te diante e junto de mim. E que esta outra tão rara e tão bela construção, feita a partir de nós, que juntos a quatro mãos criamos, perdure, cresça, continue. Enquanto for esta a tua e a minha vontade, enquanto prazerosa, preciosa e benéfica para ambos seja. Que o nosso Senhor nos abençôe para que prossiga, indefinidamente, sendo. Tijolo por tijolo, dia após dia.
E se falo de alicerces, minha tão amada poeta, devo também dizer-te sobre asas, de nossas asas. Sobre a liberdade, infinitude e amplidão em todos os caminhos. Sobre a beleza dos vôos, em todos os dias, em todas as noites, em todas as direções que escolhermos, em todos os céus que desejarmos. Sobre o alcance ilimitado dos sonhos. E suas realizações. Que dos sonhos, deles tanto preciso para realizar-me em ti. E da realidade tão bela que trazes ao sonhar-te em mim. Que tu me ensinas a vida, o presente. Este lindo e valioso presente. Que nele é construído a possibilidade do futuro e sem ele futuro não há. Quão grato sou por me trazeres, por me mostrares, por propiciares isto. Que aceites também presentear-te o futuro. Pois que os sonhos criam rumos, trajetos, mapas, planos, objetivos; embora não a obrigatoriedade dos mesmos, nos dá o vislumbre dos caminhos pelos quais percorrer para chegar onde desejamos. E é por isto que deles tanto preciso. Para não me perder, para neles chegar e não apenas pensar em chegar. Para que de lá tantos outros, belos e desconhecidos sonhos e rumos se formem. Em verdade, preciso das duas coisas. Viver a beleza real do agora e sonhar a beleza, mesmo que incerta, do porvir, para torná-la também real. Desejo, pois, compartilhar contigo estes sonhos, como tu compartilhas a tua realidade comigo. Para que eu possa melhor compartilhar minha realidade contigo, e tu, teus sonhos comigo. Que ambos os presentes sejam sempre por nós bem-vindos e gratamente aceitos e valorizados. Que possamos conciliar e respeitar as realidades diferentes e os sonhos individuais, e também criarmos as nossas realidades e os nossos sonhos em comum, e assim vivenciá-las e vivê-los plena e livremente. Cada qual ao seu tempo, sem pressa e também sem demora, no melhor ritmo, mais leve, prazeroso e confortável para os dois. Onde não se alcança com a ação, alcançamos com o respeito e com a compreensão. Que possamos, portanto, ao irmos em direção um do outro, encontrar o equilíbrio das coisas em nós distintas. Ao nos encontrarmos no meio, torna-se justa a distância percorrida por ambos e então leves e gratificantes todas as outras distâncias que decidirmos percorrer juntos.
Acredito ser tudo isto possível, linda escritora, pois sei que para todas essas coisas somos capazes, se assim quisermos. Sermos livres e cultivarmos a liberdade juntos. Sem sacrifícios, sem deixarmos quem somos, sem nos agredir a nós mesmos individualmente. Sermos individuais e sermos juntos: união saudável e bela de duas grandezas e duas inteirezas. Acredito, pois é o que tem acontecido tão naturalmente conosco desde sempre. O respeito, a compreensão e, sobretudo, o amor que temos um pelo outro nos traz esta possibilidade, tão rara mas tão verdadeira.
Por fim, tão amada, que não te extenues ao ler minhas divagações e tentativas de explicar o que as palavras não podem dizer. Pois o que é, será. O que temos controle e o que não. Que a festa, a magia e a beleza de nossos dias são vivas e espontâneas. Que as forças da natureza têm vida própria, e por isto mesmo ainda mais belas e mais fortes. Que o amor, a paixão e o desejo que sentimos um pelo outro são também essas forças. E por isso tão intensas, tão imensas e tão naturais. Que a leveza e a nitidez desta percepção, por ti a mim ensinada, possam recobrir todas as minhas palavras ao chegarem a ti, meu amor. E é assim, com esta espontaneidade e com esta naturalidade, com esta confiança e com esta liberdade, com esta admiração e com este respeito, com este sonho e com esta realidade, com esta alegria e com esta vontade, que casei-me contigo ao conhecer-te. Sem teorias elaboradas ou quaisquer definições descuidadas. Longe de quaisquer roteiros, promessas, expectativas, obrigações ou formalidades, o teu amor me é, desde sempre, o mais lindo, grandioso e verdadeiro sim.
Paris, 9 de maio de 1907.
pintura: "The Poetess", de Arian